Sentirgrafia

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Antes da fotografia, do cinema e da televisão, os livros e a cultura oral dos contadores de histórias permitiam que a imaginação criasse as imagens. (…) O ímpeto de imaginar o que nunca foi visto ou o que não se pode ver vem se perdendo.
(Flávia Mayer e Luiza Sá)

A fotografia lida essencialmente com o visual,
mas nada é o que parece ser.
(Duane Michals)

O projeto
“Sentirgrafia” é um projeto desenvolvido desde 2015 por um grupo de cinco profissionais do audiovisual que une duas empreitadas com a mesma essência: explorar artifícios da fotografia para além da visão. Quanto à primeira, trata-se de oficinas de fotografia para pessoas com deficiência visual. A outra consiste em um trabalho audiovisual sobre o processo criativo e as obras de fotógrafos cegos e baixa visão.

As primeiras oficinas aconteceram em julho de 2017 em três municípios do Piauí (Agricolândia, Campo Maior e Teresina), estado que abriga a maior taxa per capita de deficiência visual do país: mais de 22% da população praticamente não enxerga. O projeto contou com 18 participantes com deficiência visual (cegueira e baixa visão) e seus respectivos assistentes videntes (pessoas que enxergam). A ideia foi compartilhar técnicas de fotografia adaptadas a cegos, em lugares onde o acesso a iniciativas artísticas que incluam pessoas com alguma deficiência fosse ainda muito difícil. Espaços que permitiriam explorar no limite o estranhamento causado por um processo muito atrelado à visão, mas passível de estimular tantas outras percepções.

Além das questões teóricas, os participantes foram estimulados por meio de exercícios práticos, como light painting (pintura com a luz) e saídas fotográficas, a explorar seus sentidos para uma construção autônoma de suas próprias imagens. Durante todo o processo, reiterávamos que todas essas possibilidades criativas transformavam a câmera em um instrumento de interação do fotógrafo com o mundo ao seu redor, e o ato de fotografar em um despertar dos sentidos – como o tato, a audição e o olfato -, necessários para a construção da imagem. Algo como um “laboratório perceptivo”.

Para ampliar a iniciativa ainda mais, as saídas fotográficas dos participantes das oficinas foram registradas em vídeo. Seus processos criativos, as maneiras que encontraram para transpor suas imagens do plano mental, abstrato, para o concreto da fotografia, para lidar com o equipamento, medir espaços e distâncias, interagir e tocar em personagens e objetos, tudo foi documentado.

Posteriormente, 36 das mais de mil fotos produzidas por eles durante as oficinas foram mostradas para videntes que as analisaram livremente sem, no entanto, saberem que o material foi produzido por pessoas com deficiência visual. Os comentários foram registrados em áudio e serviram, em parte, como voz “off”/narração de 11 vídeos experimentais, que revelam apenas o processo criativo de cada participante durante a oficina. As fotos em si pouco são mostradas. A intenção é que o espectador fique “às cegas”, forçado a lidar com as palavras de quem narra para imaginar o que foi retratado, tal qual o próprio fotógrafo.

Os filmes
Todos os onze curtas tratam da relação entre cegueira e processo artístico, com a adoção de linguagens híbridas entre documental e ficção. Para todos, há uma versão com recursos de acessibilidade: legenda descritiva, audiodescrição e janela de Libras.

Carne
Direção: Manoela Meyer
Duração: 7:27
Dois fotógrafos cegos exploram os corredores de um mercado popular, estimulados pelo caos acústico e odores intensos que encontram pelo caminho. Quais os limites entre ficção e realidade, entre o que se revela no papel fotográfico e o que se cria na imaginação

Flâneur
Direção: Manoela Meyer
Duração: 13:04
Mais um dia começa em uma cidade do interior. Uma ventania surge e desperta diferentes percepções em um fotógrafo incomum. Com câmera e bengala em mãos, o flanêur explora texturas, ruídos, cheiros e personagens que revelam muito sobre sua própria autonomia e existência. O que pode surgir de um percurso sensorial no qual a visão é um recurso inexistente?

Encontro
Direção: Manoela Meyer
Duração: 5:38
Uma busca pelo desconhecido, em meio aos corredores labirínticos e saturados de um mercado popular. Quais encontros acontecem quando se conta com uma câmera, mas não com os olhos?

Em trânsito
Direção: Manoela Meyer
Duração: 8:40
O que se pode falar sobre o que não se conhece, sobre o que não se revela na totalidade? Um filme que tece relações entre cegueira e fotografia, e lança questões sobre processos de criação artística, discurso e imaginação.

Solares
Direção: Manoela Meyer
Duração: 5:56
O encontro da imaginação e sensibilidade de duas mulheres cegas que registram em fotografias seus interesses, sonhos e maneiras de se relacionar com o mundo.

Grãos
Direção: Manoela Meyer
Duração: 5:29
Um ensaio sobre o processo criativo de um fotógrafo cego a partir de imagens ampliadas, reenquadradas, ressignificadas.

Céus
Direção: Daniel Lolo
Duração: 5:06
Lentes que miram o que está acima de nós. O céu, elemento presente neste lugar, é a conexão para se entender esta busca além da fotografia.

Ensaio
Direção: Daniel Lolo
Duração: 8:43
Este ensaio audiovisual propõe diálogos sobre aspectos do cinema e da fotografia a partir de imagens que ao primeiro olhar parecem tecnicamente incorretas. Ao assumir esses registros que vão além de padrões técnicos e estéticos, expõe-se a fragilidade do discurso que busca definir o que pode ou não ser considerado arte.

Picadeiro
Direção: Daniel Lolo
Duração: 7:20
Entre uma apresentação e outra de um espetáculo circense, existe um cotidiano, uma vida comum. Enquanto os mais velhos jogam dominó e cuidam dos seus afazeres, as crianças transformam aquele lugar num contínuo momento de diversão. Nos bastidores, no picadeiro, revela-se uma magia própria, um encontro único. O registro de um carinho.

Retalho
Direção: Daniel Lolo
Duração: 5:32
Sem poder enxergar, Gustavo descreve detalhadamente as fotografias que tirou, enquanto retalhos dessas imagens preenchem a tela.

Retratos
Direção: Daniel Lolo
Duração: 10:34
Entre planos e fotos, Rosângela aprende a fotografar. Enquanto é filmada por um cinegrafista, ela percorre os espaços de um circo com sua amiga Arlete. Sem enxergar, ela explora seus outros sentidos para registrar suas próprias imagens. Rosângela faz ecoar neste filme seus gestos, sua voz e seus retratos.

Equipe do Projeto
Produção: Andre Sakiyama, Daniel Lolo e Manoela Meyer
Vídeos: Daniel Lolo e Manoela Meyer
Oficinas de fotografia: Joyce Cury e Otavio Almeida

Para mais informações, envie um email: sentirgrafia@gmail.com 

O projeto foi selecionado pelo edital “Rumos 2015”, promovido pelo Instituto Itaú Cultural.

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2 comentários sobre “Sentirgrafia

  1. Excelente iniciativa. Profissionais altamente capacitados. Grupo de alunos introssados e bem aplicados ao conteúdo. Que venham mais projetos semelhante a esse, com acessibilidade, inclusão e capacitação para pessoa cega. Parabéns a equipe.

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    1. Foi com certeza uma das melhores experiências que já vivemos, Helô. Obrigada por acreditar na ideia e por sua participação tão crucial em Teresina. Esperamos rever todxs em breve!

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